quinta-feira, 3 de julho de 2014

Humanos

O advogado, o faxineiro, o lavrador
A lavadeira, a empresária e o marceneiro
A balconista, a médica, o doutor
O presidente, a puta e o banqueiro

O branco, a branca, o velho
A criança, o negro e a negra
O oriental, a índia, o gordo
A magra, o índio e o adolescente

Muçulmano, budista, cristão
Espírita, católico, protestante
Hare krishna, cínico, estoico
Umbandista, niilista, ateu.

Não sei fazer poesia; aliás, nem sou dos que gostam tanto dela. Percebe-se, né? Rimas pobres (quando há rima), falta de métrica, compasso nenhum... Mas preferi começar assim este texto. Várias faces de pessoas. Podem ser várias pessoas ou até mesmo uma só convergindo alguns daqueles rótulos. Afinal, o negro pode ser cristão e presidente assim como a índia pode ser hare krishna e puta. Por que não?

Creio que um dos problemas que nos atinge intensamente é observar um rótulo por vez. É mulher! É puta! É presidente! É negro! É rico! É índio! A cada vez que atribuímos um dos vários rótulos que temos a uma pessoa, matamos, sem querer - ou não - o que há nela além daquela pequena faceta que vemos. É puta? Sim, mas é também mãe, mulher, filha, vizinha. É bandido! Creio que não; mas, além de ter cometido algum delito, é também filho, irmão, vizinho. Propositalmente não disse que é trabalhadora ou trabalhador, porque, embora possam ser, não é só isso que diz sobre o caráter das nossas duas fictícias personagens. Além disso, podem, a puta e o "bandido", serem bastante religiosos.

Reconhecer que aquelas classificações não determinam o que há de essencial em cada ser humano é fundamental para vivermos bem. Observar além da aparente carne, vestimenta mortal que evidencia escolhas, é atitude das mais corretas para as relações entre todos nós. Imprescindível, para isso, pensarmos que não se trata do branco, do negro, do índio, do católico, do umbandista, do oriental ou do ocidental; trata-se de cada um e todos sermos pessoas.

Acredito que o mundo seria melhor se nos acostumássemos mais com a ideia de pessoa do que com a de indivíduo. ("Mais com" não exclui o menos, ok? É muito metodólogo para um mundo só.) A pessoa é relacional, é afetiva, é humana. A ideia de pessoa nos liga ao outro independentemente de disposições exteriores; vincula-nos pelo simples fato de sermos todos humanos. Considerarmo-nos pessoas, em vez de indivíduos, é admitirmos igualdade sem apontamentos heterônomos; sermos livres porque todos somos; solidários porque nos reconhecemos. Reconheço não só outros advogados, outros maridos ou outros filhos; reconheço também faxineiros, esposas e também desempregados. Afinal, somos todos humanos.

Tenho para mim que perceber os outros como pessoas, como humanos, sem atentar para os variados rótulos que em cada uma delas podem convergir, facilita nossa vida e nos previne de julgamentos. Seres na existência, que vivem e morrem buscando algum significado pelos tantos caminhos existentes (aqui não faço juízo de valor se alguns são "certos" e outros "errados"), somos todos peregrinos num mundo em que, quanto mais nos olharmos com compaixão, mais humanos nos tornaremos. É bastante visível a busca por um reino de felicidade - seja aqui, seja acolá - mas, enquanto nos distinguirmos individualmente, com grande dificuldade chegaremos a nos aproximar pessoalmente.

Sei que me meto, sem poder, em temas caros a estudos sociológicos, antropológicos e filosóficos; mas como bem sabem meus raros leitores, não sou sociólogo, não sou antropólogo, nem nada. Apenas tento pensar.


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